Uma contribuição ao debate sobre Tecnociência e Economia Solidária
Uma contribuição ao debate
sobre Tecnociência e Economia Solidária
Sobre a tecnociência
Começando pela conclusão, os limites entre a ciência e a
tecnologia podem ser cada vez mais difusos, mas existem. Não podemos enquadrar
toda a ciência e toda a tecnologia como tecnociência.
Essa discussão sobre ciência e tecnologia remonta aos tempos
de Platão e Aristóteles, com os conceitos de téchne e epistéme.
Aristóteles define a segunda como o saber teórico com um fim em si mesmo. E a
primeira como o saber fazer as coisas do mundo, com um fim que não está em si
mesmo, e sim em seu uso.
Ao longo do tempo esses conceitos foram evoluindo. O que
para os gregos eram conceitos filosóficos, para nós são conceitos fortemente
ligados a economia e a valorização.
A questão da subordinação se reveste de um caráter
importante. A ciência é vista como a que produz todo o conhecimento racional e
verdadeiro, que permite ver o mundo com objetividade, e a tecnologia como a
materialização da produção científica, como a capacidade de produzir objetos ou
técnicas que funcionem, atendendo alguma necessidade objetiva. A ciência seria
pura, sem vínculos com os interesses imediatos nem com o lucro. Já a tecnologia
se revestiria de um caráter mais mundano, da produção de artefatos para serem
vendidos. A tecnologia se apropria da produção científica capaz de permitir a
construção de produtos; de mercadorias ou de técnicas de fazer. A tecnologia é
instrumental, a ciência produz a verdade.
Se partimos do princípio de que em uma sociedade dividida em
classes, em que uma delas se sobrepõe as demais e determina o seu
funcionamento, nada que é produzido pelo homem é isento e puro. Toda produção,
científica ou não, tecnológica ou não, é realizada sob as determinações dos
interesses das classes dominantes. Essa realidade contamina e define qualquer
discussão. Nenhuma nomenclatura afasta de per si essa realidade. No mundo
capitalista só se produz o que é do interesse do capital e da classe que o
controla e detém.
De alguns anos para cá o termo tecnociência passou a ser
utilizado. Esse termo pressupõe que modernamente não podemos mais conceber
ciência e tecnologia como duas atividades distintas. Seriam atividades
indissociáveis e fortemente vinculadas a atividade econômica. Há várias
vertentes com algumas visões diferentes para o uso desse termo.
É fato que muitas tecnologias são desenvolvidas a partir de
conhecimento científico. A mecânica quântica, um insondável ramo da física,
permitiu a criação de vários artefatos, como laser e LED. Ou ainda computadores
e criptografias quânticas. Mas é fato também que muita ciência somente pode ser
produzida a partir de artefatos tecnológicos, como os aceleradores de partícula
ou telescópios poderosos e funcionando em várias faixas do espectro
eletromagnético. Ou seja, em muitas situações é difícil definir as fronteiras
entre ciência e tecnologia e o termo tecnociência se torna de uso evidente.
Mas, por outro lado, não podemos dizer que todo conhecimento científico
produzido tem utilidade para a produção de tecnologia e nem toda tecnologia
deriva diretamente de conhecimentos científicos. Principalmente o considerado
conhecimento científico. Qual a utilidade tecnológica nesse momento de toda a
física desenvolvida por Stephen Hawking sobre buracos negros? Pode nos servir
no futuro, da mesma forma que a física quântica não teve nenhuma utilidade logo
após a sua formulação.
A tecnociência pressupõe o fato de que não é mais possível a
separação de ciência, entendida como teoria, e prática. E que também elimina a
intrínseca hierarquia que existe entre ciências e tecnologia. A tecnologia
ganha lugar de destaque e deixa de ser o primo pobre da relação. Ambas adquirem
o mesmo valor intrínseco.
Mas isso não é uma verdade absoluta. Por mais imprecisas que
sejam as fronteiras elas existem. A base da produção do conhecimento científico
segue sendo a busca por teorias e modelos que melhor expliquem o funcionamento
da natureza, do universo e de nós mesmos, como seres biológicos e sociais. Por
mais próximo que a ciência esteja da tecnologia, e está, o principal objetivo
da ciência é ainda experimentar, testar, elaborar e reelaborar teorias em um
ciclo sem fim. Evidente que quanto mais próximo de um produto, uma mercadoria
de fato, a ciência esteja, mais atende aos interesses das classes dominantes. E
é evidente que essa produção não é nem isenta nem neutra, como já visto.
Por sua vez a produção de objetos para o uso, de técnicas e
de mercadorias, segue sendo o foco do trabalho e da pesquisa tecnológica. Para
isso, além do conhecimento científico, é necessário um saber fazer, um conjunto
de conhecimentos práticos oriundos de experiências anteriores. O como fazer
exige conhecimentos específicos. Conhecimentos típicos de engenheiros, médicos
e mecânicos, por exemplo, sempre são necessários no desenvolvimento
tecnológico. É mais óbvio entender a produção de tecnologia como uma
determinação das necessidades do capital por estar quase sempre associada a
mercadorias ou produtos para serem vendidos.
O termo tecnociência é de fato controverso e gera confusões
no sentido de substituir os termos ciência e tecnologia. Para o físico e
filósofo da ciência Mario Bunge, por exemplo, somente pode ser aplicado a
produção de pessoas como Galileu ou Tesla que produziam ao mesmo tempo ciência
e tecnologia. Algumas vezes produziram tecnologia, como o telescópio, como fez
Galileu, para produzir ciência.
Há assim espaço para se falar de tecnociência e de ciência e
tecnologia se afastamos qualquer tipo de segregação entre teoria e prática e
qualquer subordinação ou hierarquia de uma com a outra. Se admitimos que nem
uma nem outra são neutras, como querem fazer crer que a produção científica é.
Ambas são determinadas por suas interações com a sociedade. Ambas estão
expostas as subordinações estabelecidas por uma sociedade capitalista. Seja
ciência, tecnologia ou tecnociência, considerados seus papeis na sociedade,
devem ser apropriados e expropriados em favor da classe trabalhadora e do povo.
Devem ser instrumentos da construção do socialismo na direção de uma sociedade
sem classes.
Resumindo, a construção de conhecimento de qualquer natureza
em uma sociedade capitalista nunca é neutra. Sempre atende os interesses da
classe dominante. No caminho da construção de uma sociedade sem classes, cabe
aos trabalhadores e ao povo, e nisso o PT tem um papel importante, inverter
essa situação, para mudar a orientação dessa produção para atender os seus
interesses.
Sobre a economia solidária
Da mesma forma começando pela conclusão, a economia
solidária não é uma alternativa para a superação do capitalismo, nem como modo
de produção, nem como instrumento de dominação.
A economia solidária pode ser definida como atividades
econômicas quaisquer que sejam organizadas com os princípios da autogestão,
onde não existem nem patrões nem empregados. Todos são igualmente e ao mesmo
tempo as duas coisas. Pretende ser uma alternativa diferente a gestão
empresarial, a geração de empregos, na inclusão social e no trato com o meio
ambiente. Suas bases seriam o bem-viver, a solidariedade, a autogestão e o
respeito a natureza, dentre outros. Pretende também diminuir a desigualdade na
sociedade.
É uma forma de organização muito antiga, existente há
séculos, mas nos marcos do capitalismo surge como resposta dos artesãos à perda
de suas fontes de renda, e a de seus empregados, com a Primeira Revolução
Industrial. No Brasil esse modelo de negócios ganha força nos últimos anos em
função de alguns fatores como o desemprego e o desalento que levou parcela
significativa da população a buscar formas alternativas de geração de renda. O
MST é um grande exemplo da aplicação dos conceitos da economia solidária.
Mais recentemente, já no governo Lula em 2003, é criada uma
secretaria específica para tratar do assunto, A secretaria Especial de Economia
Solidária. Paul Singer foi o primeiro secretário. A secretaria foi extinta em
2016, no governo Temer.
O economista Paul Singer aponta que a economia solidária
surge no Brasil na década de 70, em função da crise gerada pelo aumento dos
preços do petróleo, como uma alternativa para enfrentar a fome, o desemprego e
a miséria. A Igreja Católica, através da Cáritas, que começou esse trabalho.
Alguns sindicatos mais tarde começaram a arrendar fábricas em processo de
fechamento ou já fechadas para preservá-las e com isso seus empregos. Isso
aconteceu com centenas de empresas na época e há vários casos de sucesso. A
campanha do Natal sem Fome nos anos 90 inspira Paul Singer e outros a buscar
alternativas mais diretas contra a fome, atuando contra o desemprego. As
primeiras soluções desenhadas foram a construção de cooperativas. O nome
economia solidária para essas iniciativas surge na construção do programa de
governo de Luiza Erundina em 1996. A proposta era a de organizar os
desempregados em cooperativas. Esse acúmulo faz com que o tema esteja no
programa de governo de Lula.
Singer em uma entrevista a Carta Capital (https://www.cartacapital.com.br/blogs/brasil-debate/Paul-Singer-Economia-solidaria-se-aproxima-da-origens-socialismo/)
fala que a economia solidária é a volta do socialismo as suas origens. A Robert
Owen, um reformista escocês do século XIX, um dos mais influentes socialistas
utópicos. Ele é considerado o pai do cooperativismo e foram seus partidários
que inventaram a autogestão. O socialismo utópico é duramente combatido por
Marx e Engels, formuladores do socialismo científico. Para Singer essa visão do
socialismo não era uma utopia. Para Marx e Engels, era.
Ao colocar que empreendimento da economia solidária, segundo
Paul Singer, “nega a separação entre trabalho e posse dos meios de produção,
que é reconhecidamente a base do capitalismo. (...) A empresa solidária é
basicamente de trabalhadores, que apenas secundariamente são seus
proprietários. Por isso, sua finalidade básica não é maximizar lucro, mas a
quantidade e a qualidade do trabalho", ele entende que "o único jeito
de construirmos uma sociedade socialista, que mereça o nome e não seja
meramente uma pretensão ou bandeira, é pela via democrática. Os valores da
democracia são os valores do socialismo.”
Já um outro estudioso, Euclides Mance, diz que a economia
solidária vai além da questão da geração de emprego e avança, com a colaboração
solidária, na construção de uma sociedade pós-capitalista que garante o
bem-viver para todos. Ele diz: "ao considerarmos a colaboração solidária
como um trabalho e consumo compartilhados cujo vínculo recíproco entre as
pessoas advém, primeiramente, de um sentido moral de corresponsabilidade pelo
bem-viver de todos e de cada um em particular, buscando ampliar-se o máximo
possível o exercício concreto da liberdade pessoal e pública, introduzimos no
cerne desta definição o exercício humano da liberdade"
Como se pode ver a economia solidária pretende se colocar,
do ponto de vista da organização social, como alternativa pós-capitalista
baseada em ideias com origem no socialismo utópico. E do ponto de vista
econômico como algum tipo de novo modo de produção pós-capitalista, na medida
que os trabalhadores desse empreendimento capturam o valor e o mais valor
daquilo que produzem, extinguindo, tanto do ponto de vista da organização
social, quanto do ponto vista econômico as figuras do patrão e do empregado, sendo
todos ao mesmo tempo as duas coisas. E isso sem indicar nenhuma ruptura radical
com o capitalismo e aparentemente ignorando a luta de classes.
Não há números confiáveis para determinar o tamanho da
economia solidária no Brasil. O último levantamento, precário, foi em 2013, com
dados de 2010. Há muitos números circulando sem muita base. Assim é difícil
medir sua importância econômica.
É certo que a economia solidária tem que ser considerada em
qualquer programa de governo do PT. É um caminho para a geração de renda e
trabalho, principalmente em uma conjuntura como a que vivemos. Pode ser
considerada como uma alternativa importante para o desenvolvimento de algumas
regiões ou para a produção de alguns produtos sofisticados. Mas certamente não
pode ser o centro de uma política de geração de emprego e renda e de centro de
um programa de desenvolvimento econômico para um país tão complexo, com uma
economia sofisticada e com a população que temos. Nem no curto nem no longo
prazo.
A economia solidária é uma importante iniciativa para o
exercício dentro dos marcos do capitalismo de soluções que podem estar na
organização da produção pós-capitalistas. Mas ela em si não é uma inciativa
pós-capitalista. Para qualquer lado que se olhe é uma forma de se organizar para
produzir mercadorias que serão consumidas em um mercado capitalista. Seguimos
produzindo valor de troca. E o mercado capitalista segue intocado. O MST, por
exemplo, está emitindo títulos para serem negociados no mercado de capitais
para financiar algumas cooperativas. Esse é um exemplo da imersão da economia
solidária naquilo que o capitalismo produziu de mais destrutivo: o mercado
financeiro. Grosso modo o MST irá produzir solidariamente excedente para gerar
ganhos para rentistas. Extraindo parte do mais valor produzido para ser
transferido para o capital fictício. Certo ou errado, para o bem ou para o mal,
no fim da linha é isso que está acontecendo.
Não podemos tirar do foco questões tão importantes como o
sistema de proteção social do estado, incluindo previdência, saúde, assistência
social, dentre outras coisas, nem educação e segurança pública. Não basta
termos uma economia solidária, em que todos vivam uma situação de bem-viver e
de felicidade sem pensar em como financiar o Estado. E não basta falar que não
estamos aqui para falar do financiamento do estado capitalista. É nesse estado
que vivemos e que viveremos até a tomada do poder pela classe trabalhadora. E é
esse Estado que precisa ser financiado para garantir direitos ao povo.
Não podemos nos fixar em soluções utópicas de bem-estar
infinito. A luta de classe é dura e cruel. Nos impõe obstáculos históricos que
somente podem ser superados com a organização da classe trabalhadora e do povo
para a tomada do poder. Esse é o caminho para a conquista de uma sociedade
socialista que se dirige para a construção de uma sociedade sem classes.
A economia solidária é uma iniciativa importante que tem que
estar presente nos nossos programas e ser incentivada de forma permanente,
responsável e com os recursos necessários. Mas certamente não é uma alternativa
ao capitalismo nem o centro de uma política de desenvolvimento e emprego para o
nosso país. A questão é muito mais complexa.
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